A Lua de Joana
No título de um livro da adolescência, encontrei um novo porto de abrigo. Hoje, sento-me na minha Lua e, ao ritmo dos seus ciclos e das marés, vou e venho... cresço, minguo e renasço nova. Um dia, serei cheia.
July 17, 2013
Os pobres também se apaixonam
July 08, 2013
A menina que escrevia
June 26, 2013
EntreTanto
June 24, 2013
Kadett e Giulietta
O velho Kadett estava parado há já alguns dias à porta de casa. "Não me venhas buscar não, Henrique, e depois queixa-te que a bateria descarrega", pensou. Tinha passado a última semana e meia ali na rua. A Dona Francisca, quando passava, agora ainda mais devagar e já agarrada ao andarilho, descansava ali ao lado e dizia "Ai, Kadett, estás como eu. Já estamos como havemos de ir...". E ali ficava mais uns instantes, a falar sobre o tempo, as pessoas e o pouco sentido que ambos fazem nos dias que correm. Kadett sabia que a Dona Francisca tinha uma lucidez muito superior à de muitos jovens, até mesmo quando conversava com um carro.
E Dona Francisca lá seguiu, ao seu ritmo. Kadett acompanhou-a com o olhar, enternecido. Foi quando a velhota começou a desaparecer no fundo da rua que "ela" apareceu. Linda, branca, jovem, de uma elegância inigualável. "Que classe", pensou. À medida que a jovem se aproximou, tornou-se claro: vinha conduzida pelo Henrique. Kadett não ficou surpreendido. Sabia que, mais tarde ou mais cedo, isto iria acontecer... Só não tinha a certeza de estar preparado para ser trocado por uma "mulher".
Henrique passou, como o tempo, sem parar. Uma vez, duas, tantas. Um dia, estacionou mesmo em frente ao Kadett. Aproveitou para lhe colar uma folha manuscrita no vidro. "Trata"? Kadett não percebeu. Nem quis perceber.
Passou uma hora, duas, três... e ela continuava ali estacionada mesmo à sua frente. Linda, jovem, indiferente. Conseguiu finalmente ver-lhe o nome... Giulietta. Queria dizer-lhe alguma coisa, mas não conseguiu. Nunca conseguiria explicar-lhe que nenhuma aceleração se compara à do coração do Henrique quando, há 40 anos atrás, foi buscar pela primeira vez a Ivone para irem ao teatro. Que os travões ABS pouco interessam quando se transportam noivos, o primeiro filho, o segundo, o terceiro. Nunca seria capaz de lhe descrever a emoção de quem faz a primeira viagem do pequeno Tomás para a escola e depois a da Carminho. E as viagens diárias para o colégio, para a universidade e para a primeira entrevista do Duarte, o mais novo. Natais e Férias. Alegrias e tristezas. Os fechos centralizados passam a fazer muito pouco sentido quando a família se separa: se não conseguem chegar a um consenso em relação a nada, para que quererão abrir e fechar as portas em simultâneo?
Poderia dizer-lhe tanto, mas, naturalmente, não o fez. Uma jovem cheia de esperanças e de sonhos dificilmente ouviria um velho. E Kadett nunca foi muito dado a conversas. Muito menos com italianas.
June 14, 2013
Sara
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Foto em: http://portakalkurdu.tumblr.com/post/52647770024 |
January 23, 2012
Grito
Grita. De raiva. De desespero.Como se, de uma só vez, quisesses tirar tudo de dentro de ti. Cá para fora. E esperneia. E atira-te para o chão. E odeia tudo e todos e o mundo onde nasceste. E chora, se tiveres que chorar. E bate com a mão na mesa. Com mais força ainda... E mais. Ninguém está a ver. Nem a ouvir.
Grita. Mais alto. Revolta-te. Não deixes que o (teu) mundo te passe novamente por cima. Cerra os punhos com força. Mais força ainda. E não abras, nem quando a ponta dos dedos te doer mais do que alma. E derruba tudo e todos.
Grita como nunca gritaste. E depois... Depois dá-me a mão, diz, baixinho, que me amas e volta a adormecer. Em paz.
Ou então baixa os braços. Desiste. E continua.
July 06, 2011
Calendário
Longe vai a altura em que os dias (se) contavam. Quando deixamos que o tempo passe por nós e vá levando tudo aquilo que não queremos guardar, deixamos de nos preocupar com ele. Não sabemos quanto tempo passou... nem quanto falta passar.
Ficamos inertes, só à espera que ele passe, que vá passando. Que arraste tudo o que quiser, mesmo sabendo que corremos o risco de ficar vazios. Ou que podemos ser por ele levados, inteiros ou em pedaços, pouco importa.
Um dia, sem sabermos porquê, e sem sequer pedirmos, o sol entra-nos pela janela. Levantamo-nos, escolhemos um vestido quase novo, enchemos o peito de ar (e de tudo o que com ele vier à mistura) e saímos. Sem medo, porque os bichos papões e os fantasmas são apenas um produto da nossa imaginação. Porque o vazio que temos em nós, afinal, não é mais do que espaço por preencher. Porque, lá ao fundo, já se ouve o eco de um bater ritmado. Porque se adivinham melodias, chocolates e gelados, maresia, pores-do-sol coloridos e todas essas coisas que aquecem os sentidos (e a alma por arrasto). Porque os dias são maiores, e as noites insistem em ir passando devagar. Não sabemos quanto tempo passou sem que déssemos por isso; não imaginamos quantas estações passaram por nós; Nem interessa...
É Verão. E é daqui que partimos. Em sintonia com o tempo, sem deixar que ele passe em vão, e guardando em nós tudo o que ele trouxer. Tal qual a praia com as marés.
September 30, 2009
Fénix

Cabeça e coração em guerra aberta e declarada. A alma fica parada, à espera que passe. Na esperança que passe. Na esperança que a cabeça um dia acredite que nem tudo tem uma explicação, ou que o coração aprenda que há males que vêm por bem. Um deles tem de ceder.
Enquanto isso, tudo o resto morre devagar... Porque alguém disse, um dia, numa melodia banal mas com palavras cheias de sentido: "é preciso morrer e nascer de novo, semear do pó e voltar a colher".
June 06, 2009
Viajantes

É aqui a nossa casa. Não a contruímos, nem nada fazemos para a manter. Mas é aqui que, sem sabermos bem porquê, de forma inevitável, tudo parece fazer sentido.
Enquanto o chá arrefece, vamos partilhando de forma mais ou menos clara as aventuras e desventuras das viagens de cada um. O cansaço dá lugar a uma calmaria que só aqui encontramos. As nossas mãos adormecem juntas, e acordamos a partilhar um sorriso.
E partimos. Sem certezas, mas também sem grandes dúvidas. Todos os viajantes precisam de um porto seguro a que chamam "casa".
"Nunca senti bater o meu coraçãoh
Como senti ao sentir a tua mão
Na tua boca, o tempo voltou atrás
E se foi louca essa loucura,
Essa loucura foi paz."
May 30, 2009
Sonho de uma noite de Verão
Pela janela entreaberta chega-nos uma brisa morna com cheiro a Verão e maresia. Timidamente, partilhamos um sorriso cúmplice.
Com um fascínio quase infantil, sigo o movimento das tuas mãos, hoje sobre as cordas, e deixo-me levar. Depois, fecho os olhos, e permito-me que me cantes, em jeito de sussuro, ao ouvido. Sabe bem.
"When 'r' you gonna realize, it was just that the time was wrong, Juliet? "
[Há coisas que não se explicam. Tomara que o Universo faça o seu papel e que este conto tenha, no tempo certo, um não-final feliz]
April 30, 2009
Desejo II

Fechei os olhos com a mesma convicção com que cerrei os punhos.
Fiquei assim uns instantes e, num momento de puro egoísmo, desejei com todas as minhas forças que o Mundo acabasse amanhã.
April 06, 2009
Desejo
"Fecha os olhos e pede um desejo", disse-me ele, enternecido.
"Eu não preciso de nada", disse eu. Ele sorriu.
Eu fechei os olhos e, em segredo, desejei conseguir adormecer em Paz quando a noite chegar. E acordar num qualquer dia seguinte, com um bocadinho menos deste peso que carrego em mim e que não sei descrever.
Há quem lhe chame saudade... Eu já não sei que nome lhe dar.
March 03, 2009
"Mar adentro"

Foto: Marek Askiel
Com o passar do tempo, o meu barquinho foi crescendo. Tu ensinaste-me a escolher as melhores madeiras, com o mesmo entusiasmo que hoje me ajudas a içar as velas. As amarras, essas, desfaço-as sozinha. Com a alma bem apertada, mas a cabeça altiva de quem não tem dúvidas que escolheu o melhor rumo, na melhor altura possível (e há muito deixou de acreditar que há um tempo certo para tudo).
Vou deixar-me ir, tendo o horizonte como destino. Não pela vontade de me dar ao mar, mas pela necessidade de te deixar no cais. Porque tudo fica em Paz quando finalmente aprendemos (e compreendemos) que nem todos são felizes a navegar. Uns constroem um barco (uma caravela, uma casquinha de noz) e encontram a felicidade na viagem que fazem à sua procura. Outros são felizes no cais, à sua maneira, a ver as gaivotas planar por entre as nuvens, e apenas com a certeza de que o Sol, amanhã, como ontem, voltará a nascer.
December 18, 2008
Há dias...

Há dias em o nosso Mundo parece pequeno demais para nós próprios.
... em que não sabemos bem se a estrada que percorremos foi aquela que escolhemos.
... em que até a mais simples decisão (vermelho ou verde?) nos parece impossível de tomar.
Há dias em que a alma cansou demais o corpo, sem pedir licença.
Hoje vou fugir do dia e esconder-me em ti. Só na imensidão do nosso abraço me sei perder, para me encontrar.
September 29, 2008
O segredo
Desfez-se o nó na garganta que me sufocava e já não me deixava respirar.
Dei-te o meu pequeno nosso-segredo, sem embrulhos bonitos nem laçarotes. Sem dedicatórias sentidas e trabalhadas. Sem o abraço para selar tudo isso.
Desfaz-se um nó... dão-se outros.
E assim, com o coração apertado e a cabeça invadida de milhares de pensamentos-surpresa que não compreendo e não sei explicar, deixo-me adormecer. Sei que o Tempo fará o seu papel. E tu o teu. E eu o meu.
September 24, 2008
Post-it amarelo
Saí sem fazer barulho, de mansinho, para não te acordar. Na mesa que deixei preparada para o pequeno-almoço, colei um post-it amarelo, que enchi com letras bonitas de menina:
Fui às compras. Não fugi. Não quero fugir,
e mesmo que quisesse não conseguiria.
Para fugir de ti teria de fugir de mim primeiro.
Se eu chegar antes de mim, recebe-me
com um sorriso, diz-me que estiveste sempre aqui
(tal como a saudade), faz-me sentir amada,
e não me largues nunca mais.
BOM DIA!

Foto: Alina Andrei
September 21, 2008
Regras da Sensatez

Andar para a frente. Dar um passo, depois outro. Parar... repensar... mas continuar. Cair. Levantar. Tudo isso faz parte do processo.
Andamos em frente... havemos de chegar a algum lado.
Já parti. Estou longe. Mas, tal como os meninos da história, fui deixando bocadinhos de mim pelo caminho. Talvez pela segurança de conseguir voltar, se a Casinha de Chocolate afinal for demasiado amarga (ou doce).
Procuro a Felicidade noutro lugar, levando comigo o desejo secreto de a encontrar onde tu também estiveres. Noutro lugar, como mandam as regras da canção. Contigo, como mandam as minhas.
"Nunca voltes ao lugar
Onde já foste Feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz"
September 03, 2008
Tempo

August 24, 2008
Búzios

A velha senhora, de vestes brancas e rosto queimado pelo sol, olhou-me e sorriu. Recolheu os búzios espalhados em cima da mesa e, carinhosamente, estendeu-me as mãos cheias, dizendo: "leve-os, faça deles o que quiser. Oiça o que o Mar lhe diz, mas escreva o seu próprio destino. Sem as mãos, sem a cabeça... só com a Alma".
Cheguei a casa com um bocadinho de ti no meu sorriso*. Sem querer, deixei-me trautear uma música simples (mais ou menos afinada) que agora mora no meu ouvido.
*Porque a Saudade não mata... mas engorda(-se)
August 17, 2008
Dizem por aí...

Na praia, sentei-me junto ao mar, com os pés enterrados na areia fria e o Brubeck a tocar só para mim uma música com cheiro a oriente. Fechei os olhos e ali fiquei. Onde o vento ainda me sussurra ecos de ti (como que a cantarolar alguma melodia que sei de cor). Onde o Sol ainda me toca, muito ao de leve, como se fosses tu.