
Fechei os olhos com a mesma convicção com que cerrei os punhos.
Fiquei assim uns instantes e, num momento de puro egoísmo, desejei com todas as minhas forças que o Mundo acabasse amanhã.
No título de um livro da adolescência, encontrei um novo porto de abrigo. Hoje, sento-me na minha Lua e, ao ritmo dos seus ciclos e das marés, vou e venho... cresço, minguo e renasço nova. Um dia, serei cheia.

Foto: Marek Askiel
Com o passar do tempo, o meu barquinho foi crescendo. Tu ensinaste-me a escolher as melhores madeiras, com o mesmo entusiasmo que hoje me ajudas a içar as velas. As amarras, essas, desfaço-as sozinha. Com a alma bem apertada, mas a cabeça altiva de quem não tem dúvidas que escolheu o melhor rumo, na melhor altura possível (e há muito deixou de acreditar que há um tempo certo para tudo).
Vou deixar-me ir, tendo o horizonte como destino. Não pela vontade de me dar ao mar, mas pela necessidade de te deixar no cais. Porque tudo fica em Paz quando finalmente aprendemos (e compreendemos) que nem todos são felizes a navegar. Uns constroem um barco (uma caravela, uma casquinha de noz) e encontram a felicidade na viagem que fazem à sua procura. Outros são felizes no cais, à sua maneira, a ver as gaivotas planar por entre as nuvens, e apenas com a certeza de que o Sol, amanhã, como ontem, voltará a nascer.
Foto: Mateusz ZychHá dias em o nosso Mundo parece pequeno demais para nós próprios.
... em que não sabemos bem se a estrada que percorremos foi aquela que escolhemos.
... em que até a mais simples decisão (vermelho ou verde?) nos parece impossível de tomar.
Há dias em que a alma cansou demais o corpo, sem pedir licença.
Hoje vou fugir do dia e esconder-me em ti. Só na imensidão do nosso abraço me sei perder, para me encontrar.

Foto: Alina Andrei

Andar para a frente. Dar um passo, depois outro. Parar... repensar... mas continuar. Cair. Levantar. Tudo isso faz parte do processo.
Andamos em frente... havemos de chegar a algum lado.
Já parti. Estou longe. Mas, tal como os meninos da história, fui deixando bocadinhos de mim pelo caminho. Talvez pela segurança de conseguir voltar, se a Casinha de Chocolate afinal for demasiado amarga (ou doce).
Procuro a Felicidade noutro lugar, levando comigo o desejo secreto de a encontrar onde tu também estiveres. Noutro lugar, como mandam as regras da canção. Contigo, como mandam as minhas.
"Nunca voltes ao lugar
Onde já foste Feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz"


Foto: Eddie Cowling
Foto: Xavier BAGLIN
Quando chegou a casa, a menina encontrou todos os seus bonequinhos espalhados no chão do quarto.